Um quarto

Fui andar num lugar bem desconfortável. Um lugar da minha alma que parecia não ter sido habitado.

Era escuro, gelado e úmido.

Tinha umas fotos, da minha infância, esquecidas no chão, e umas cartas de amor rasgadas e molhadas.

Tive medo de estar ali, mas aos poucos fui pegando as fotos nas mãos, elas me chamavam tanta atenção.

Fui entrando mais e andando devagar, me forçando a ficar ali. E foi ficando mais claro, meus olhos se acostumaram.

Percebi que bem lá no meio desse quarto tinha uma rachadura no teto, pela qual entrava um feixe de luz, de um sol intenso.

Algo me fez correr para lá, bem no meio, no centro, onde estava essa luz.

Olhei bem e vi que ali tinha terra, era pouco fértil e habitava lá um botão de rosa.

Ela era linda, mas precisava de mais carinho, cuidado e atenção.

Quando cheguei ali, parecia ter entrado num lugar sagrado. E minhas tantas emoções regaram aquela terra com as lágrimas que não contive.

Eu sorri.

Percebi que teria de ficar ali mais tempo e visitar aquele quarto outras tantas vezes.

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Queria fugir desse lugar, baby

Queria largar tudo e sair correndo.

Queria correr para longe, fechar a porta e nunca mais olhar para trás.

Queria sair de onde cresci e não voltar nunca mais.

Mas isso não é um bom sinal, não.

Isso quer dizer que ainda preciso voltar para aquela casa antiga e abrir uns cômodos velhos. Arrejar algumas coisas e jogar fora outras tantas.

E me permitir sentar nesse vazio.

Porque é só nesse vazio que a gente consegue ver o que ainda cabe e o que não pode mais entrar nessa morada.

É voltando por esse caminho que a gente  se reconstroi.

Não dá pra fugir o resto da vida.

No fundo ninguém quer esse título de foragido. Ninguém quer ser Jonas, não.

É gostoso correr, mas gostoso mesmo é quando a gente tem aonde parar e descansar.

Para isso é preciso ficar e criar raiz, e me disseram que isso leva um tempo…

E  assim, quando as asas quiserem bater e sair por aí, sempre saberão a direção de volta para casa.

E nesse voar terão muito amor e gratidão.

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O Homem por quem me apaixonei

Achei que ele fosse diferente.

Pensei que fosse do tipo acolhedor e sério, que busca o amor mais intenso e o encontro de almas.

Queria que ele também gostasse de usar roxo, e que também quisesse seguir a corrente boiando. (Entenda essa referência aqui.)

Queria que ele não deixasse a mochila dos pesos de expectativas da família sufocá-lo, enquanto tenta subir a montanha da Prata, para ao chegar do outro lado, perceber que com todo aquele tempo, a prata já escureceu.

Queria que ele percebesse que podia ir mais alto, mais alto do que o próprio teto que construiu para si.

Queria que ele também concordasse que um sorriso no rosto e a alma lavada, no fim do dia, valem mais do que um grande salário no fim do mês.

Queria mostrar para ele a menina dançando, o algodão doce rosa e a pipa voando no céu; mas ele nada conseguia enxergar pela tela do celular.

Queria, e como queria, que ele também acreditasse que nós DOIS poderíamos andar no mesmo caminho e viver no mesmo piso.

Gostaria que ele tivesse me tirado para dançar, mas quando olhei para o lado, ele não estava mais lá, porque no fim ele nunca existiu!

Então continuo na pista.

Ps: Esse texto é meu para todas as amigas e amigos que já criaram um mundo de expectativas e se apaixonaram por uma ilusão, quem nunca, né? Só sei dizer – ‘Eu também’, e acho que isso é o suficiente.

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Tons de Azul

No final do ano passado assisti um clipe que me deixou fascinada pelo oceano, ele foi totalmente gravado no mar. (As imagens são fascinantes, aqui o link desse vídeo). Todas as imagens e sensações me fizeram pensar.

Você já tentou, com o seu corpo, conter a água?

Já tentou entrar no mar e segurar com suas mãos ou pés aquela água que estava ali? Impossível, não?

Fico fascinada pela imagem do Oceano. Quando paramos numa encosta e olhamos para o mar, só vemos sua imensidão e o horizonte.

Esse gigante de água que não conseguimos marcar nem o começo nem o fim. Que é um mistério ainda em sua profundidade e seus esconderijos de seres vivos tão lindos.

Elemento tão vivo, tão descontrolado, e ao mesmo tempo com tamanha ordem e harmonia. Olhamos para ele fascinados e também o tememos.

Ninguém consegue pará-lo, ninguém pode contê-lo. Tentamos construir barreiras, piscinas feitas com as mãos,  para tê-lo seguro por um tempo, mas a força dele não cabe numa parede de concreto.

Tentamos adormecê-lo, anestesiá-lo.

Fazemos isso comendo demais, assistindo TV demais, Netflix sempre ligado, bebida na mão e cigarro no bolso.

Tentando ao máximo não pensar, não entrar nesse mar.

Ficar só na areia. Virar para o outro lado, e não enxergá-lo. Até o próximo tsunami…

Tamanha sua força vital, a onda não pode ser parada. Não pode ser contida, da mesma forma algumas pessoas também não;

e que refrigério saber que existem pessoas que são como o oceano. Que entram nele, se jogam e vão embora com ele. Se tornam ele. Carregam essa força vital em si, e escolhem seguir navegando.

Pena saber que com nossos descuidos da sociedade moderna o Oceano está em perigo e pessoas assim também.

ps: Parte da série de texto TONS. Veja aqui Tons de cinza e Tons de verde.

Tons de Cinza

Nada como outras perspectivas para entender que o copo pode estar meio cheio, quando outras pessoas o percebem meio vazio.

Nada como outras perspectivas para começar a ser grato pelo que tem, e perceber o amor que é seu quando vai para um lugar aonde ele é escasso.

Nada como outras perspectivas para te fazer sorrir e dançar na chuva, ao invés de ficar frustrado que seu sapato molhou.

Nada como outras perspectivas para perdoar o outro, e estender um pouco mais de graça, quando consegue olhar para os seus próprios erros, e entender que todos temos falhas.

Nada como outras perspectivas para estar agradecido de que foi para uma viagem programada, ainda que não tenha sido tão legal assim.

Nada como outras perspectivas para sentar-se à mesa e ser grato pela  sua comida  de todo dia.

Nada como outras perspectivas para estender os braços e dar afeto quando percebe o tanto que já recebeu e o tanto que o mundo precisa!

Ps:  Da série de texto Tons. Aproveite e leia o TONS DE VERDE aqui também.

A menina do rio

Ela é tão linda, tão inocente, tão curiosa, tão livre.
Ela toma banho no rio de água transparente e corre descalça, no chão de terra da tribo, atrás de amorinhas para adoçar sua tarde. Ela sempre gostou de um docinho.

Ela gosta de brincar, gosta de rir, ama andar só de camisetinha e calcinha e fazer novos amigos bem rapidinho.
Ela ama os animais, ela se diverte com as plantas, ela vive solta e é muito feliz.

Mas um dia colocaram outra roupa nela, teve que por os sapatos fechados, e prenderam-na com um colete laranja.

E disseram: “Entra no barco, vamos voltar pra casa agora.”
E a menina pensou: Casa? Mas minha casa é aqui, não é?

Ela está aqui dentro, ela mora aqui em algum lugar.

Só preciso achá-la.

Nadar de volta nesse rio e encontrá-la parada no barco. Preciso conversar com ela, preciso abraçá-la, dizer que está tudo bem, e que lá do outro lado do rio ela também tem espaço para ser tudo isso que é.

E aí já será hora de ligar o motor e guiar pelo rio trazendo ela de volta.

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Minha irmã, mãe e eu, com alguns índios quando morávamos no parque Nacional do Xingu.

A trilha

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 Em 2015 tive a oportunidade de fazer um pedacinho de 4 dias dessa trilha famosa nos Estados Unidos, a Appalachian trail. Fazia parte do programa do curso de que participei,  e no processo a gente fez essa trilha em silêncio, falando o mínimo necessário. Em uma das noites passamos sozinhos em lugares diferentes da mata. Foi com certeza uma experiência única, já que eu não tinha muita vivência em trilha, e me fez pensar bastante sobre os caminhos e o momento que eu estava vivendo; pensando nisso esses dias me lembrei de um convite que tive recentemente.

Um grande amigo me convidou para trilhar um caminho bem diferente.

Tinham montanhas e vales, passava por dentro de rios e subia em muitas pedras, tinha momentos que pular de cachoeiras era necessário, e entrava em clareiras, lugares bem vulneráveis e abertos, nos quais tinham riscos de ataques de outros animais.

Eu não sabia e nem conseguia dizer onde esse caminho terminava. Aonde ele iria me levar.

Eu olhei bem para seus olhos e com receio pedi que Ele fosse comigo na minha trilha.

Eu pensava ser um caminho reto, plano, de terra batida, e que dos dois lados tinham apenas campos de lavanda, imensidão de flores perfumadas. Ao fundo do lado esquerdo se ouvia a música de um rio que nos acompanhava. Que delícia, pensei.

Meu amigo então me disse que estava tudo bem, que ele poderia ir comigo.

Então começamos a caminhar. Ele me deu a mão e andamos.

A priori tudo era lindo, gostoso. O sol estava atrás de nós e caminhávamos juntos, seguros.

Caminhamos quilômetros, horas, dias, semanas, meses…Quando percebi eu já estava entediada, nem o maravilhoso cheiro de lavanda eu sentia mais.

Comecei a andar me arrastando, parei em vários momentos e deitei no chão. Meu amigo carinhosamente deitou-se ao meu lado e esperou.

Eu olhava tudo a minha volta e não entendia – Como eu poderia estar entediada ali?

Nossos olhos se encontraram, e nesse olhar percebi que aquele não era o meu caminho.

Era de alguém, mas não o meu.

Me lembrei que meu coração tende a se entregar.

Meu caminho é diferente, é intenso, cheio de curvas, pedras, subidas e descidas. Às vezes chega em lugares lindos e muitas vezes anda em círculos.

Anda, anda e anda e ainda não chega em lugar algum.

 E tudo bem, meu amigo disse.

Porque esse é o Meu caminho e dele só eu posso sair.

Mas ainda assim Ele estaria ali comigo.

 Comigo Sempre no meu caminho.

 

 

Em Casa

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Minha casa dos sonhos é uma tiny home, com bastante espaço fora. Quem sabe um dia…

 Quando viajei pelo mundo, em 2014/2015, mudávamos todo mês para um novo lugar, e novas acomodações. Poucas delas eu poderia dizer que foram muito boas, a maioria eram situações pouco confortáveis, como um chão de piso que precisávamos encher nossos mini colchões de ar e colocar nosso saco de dormir para um acolchoado extra. Na Índia além do chão tinhamos ventiladores de teto, o que vou dizer que já era um conforto e tanto… O que mais nos transformou no decorrer daquele ano foi justamente que cada  vez precisávamos de menos tempo para nos ambientar e ir criando um espacinho para chamar de nosso, logo já estávamos abrindo a geladeira, guardando as coisas no armário e pilotando o fogão, a depender já estávamos nos sentindo em casa. Mas também confesso que não sentimos isso sempre, dependia muito do lugar e das pessoas que estavam ali, no fim carrego o hábito de ficar confortável fora de casa bem rápido, mas não  tem sentimento maior do que voltar para esse lugar que de fato nos sentimos em casa.

É onde o sorriso é doce e o suspiro profundo.

Onde saem os sapatos apertados, entram os pés descalços e os confortos de qualquer roupa.

É onde podemos estar nús, despidos de quaisquer máscaras que usamos durante o dia.  Podemos chorar e também chorar de rir.

Podemos trocar a música do rádio sem medo de ser feliz; cantar desafinado e dançar qualquer ritmo descompensado.

É onde não importa o gingado, o salário ou a cor do sapato.

Todos que vivem ali estão em casa.

Tampouco importa o tamanho, o tipo de móveis, o que tem na geladeira ou o que falta no armário.

O que faz essa casa é esse estranho e acolhedor sentimento de que ao passar por aquela porta, nada mais pode dar tão errado.

Aquele alívio de saber: “Cheguei, cheguei ao meu lugar seguro…”

E não necessariamente é o lugar, mas aqueles que são casa para mim.

 Nas tão doces palavras de Brennan Manning:

“A Casa é onde o coração está. É o lugar que o amor é bem-vindo, a aceitação sem julgamentos, beijos, carinho e hospitalidade – elementos que induzem um profundo sentimento de pertencimento.” 

 

Tons de Verde

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Uma vez me disseram que se pudessemos classificar as pessoas, todo mundo estaria em tons de verde, e eu estaria de roxo. E por mais que eu ame a cor verde, eu entendi o que a pessoa quis dizer.

Eu sou diferente. Sou fora da curva.

Muitas vezes os assuntos que as pessoas conversam não me interessam. Outras tantas percebo meus valores tão opostos aos das correntes desse rio,  do rio que insistem em me falar que eu preciso embarcar.

Mas em meio às indecisões de entrar no rio que não quero, nadar na corrente errada, ficar na margem sozinha, ou entrar apenas para boiar; observo o desepero da maioria que já começou a corrida de natação.

Nado impetuoso, desesperados para alcançar a linha de chegada. Só esqueceram de avisá-los que essa linha nunca chega. A maratona nunca acaba.

Está quente e começo a suar,  decido entrar no rio para me refrescar e começo a boiar.

Vou olhando a paisagem linda em minha volta. As florzinhas amarelas que estão nascendo na margem, me distraio com as nuvens dançando no ceú.

E depois do fuzuê dos que passaram por mim nadando aflitos, olhei para trás e encontrei algumas outras pessoas boiando.

E aí percebi que elas também estavam usando tons de roxo.

 

dia 30 de dezembro

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Acordei às 7 horas da manhã em uma casa estranha, numa cama estranha, sozinha. Sozinha fiquei.

Abri meu celular e começou a tocar uma música conhecida de outras temporadas, de outra vida.

A música que eu podia dançar, que podia ser quem eu era. E de repente eu tenho saudades.

Saudades dessa vida e percebo que naquele dia marcava 2 anos que ela acabara.

Eu olhei pra dentro do meu coração e percebi que estou numa curva de bico.

É muito desconfortável. E eu sei que tenho que andar para frente, devagar, devagarzinho em frente, mas meu coração queria poder sair correndo para trás.

E tudo o que consigo pensar é “Será que poderia eu largar a estrada e abrir uma trilha pela montanha?”

Enquanto isso continuo parada na estrada, bem no meio da curva, com medo. Medo de ir, medo de ficar e medo de sair e ir para outro lugar.

Mas agora, já não estou mais sozinha. Agora as lágrimas me fazem companhia…