Um quarto

Fui andar num lugar bem desconfortável. Um lugar da minha alma que parecia não ter sido habitado.

Era escuro, gelado e úmido.

Tinha umas fotos, da minha infância, esquecidas no chão, e umas cartas de amor rasgadas e molhadas.

Tive medo de estar ali, mas aos poucos fui pegando as fotos nas mãos, elas me chamavam tanta atenção.

Fui entrando mais e andando devagar, me forçando a ficar ali. E foi ficando mais claro, meus olhos se acostumaram.

Percebi que bem lá no meio desse quarto tinha uma rachadura no teto, pela qual entrava um feixe de luz, de um sol intenso.

Algo me fez correr para lá, bem no meio, no centro, onde estava essa luz.

Olhei bem e vi que ali tinha terra, era pouco fértil e habitava lá um botão de rosa.

Ela era linda, mas precisava de mais carinho, cuidado e atenção.

Quando cheguei ali, parecia ter entrado num lugar sagrado. E minhas tantas emoções regaram aquela terra com as lágrimas que não contive.

Eu sorri.

Percebi que teria de ficar ali mais tempo e visitar aquele quarto outras tantas vezes.

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A menina do rio

Ela é tão linda, tão inocente, tão curiosa, tão livre.
Ela toma banho no rio de água transparente e corre descalça, no chão de terra da tribo, atrás de amorinhas para adoçar sua tarde. Ela sempre gostou de um docinho.

Ela gosta de brincar, gosta de rir, ama andar só de camisetinha e calcinha e fazer novos amigos bem rapidinho.
Ela ama os animais, ela se diverte com as plantas, ela vive solta e é muito feliz.

Mas um dia colocaram outra roupa nela, teve que por os sapatos fechados, e prenderam-na com um colete laranja.

E disseram: “Entra no barco, vamos voltar pra casa agora.”
E a menina pensou: Casa? Mas minha casa é aqui, não é?

Ela está aqui dentro, ela mora aqui em algum lugar.

Só preciso achá-la.

Nadar de volta nesse rio e encontrá-la parada no barco. Preciso conversar com ela, preciso abraçá-la, dizer que está tudo bem, e que lá do outro lado do rio ela também tem espaço para ser tudo isso que é.

E aí já será hora de ligar o motor e guiar pelo rio trazendo ela de volta.

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Minha irmã, mãe e eu, com alguns índios quando morávamos no parque Nacional do Xingu.